Uma história verdadeira

mar-2023

Este mês, o hospital de dia de Psiquiatria (HD) que coordeno, o do Hospital de Egas Moniz (HEM), fez dez anos.

Em Março de 2013, com um grupo de apenas três pacientes (o Cesarino, o Marco e a Marisa) – encaminhados a partir da minha lista de doentes do concelho de Cascais – fiz o primeiro grupo terapêutico do HD. Depois deste, muitos outros doentes foram tratados no HD e muitos outros grupos terapêuticos foram realizados; por mim e pelos médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais e outros terapeutas que por lá passaram, e que ajudaram a construir o HD ao longo da última década. O HD não seria o que é hoje sem o contributo de todos.

Dito isso, e uma vez que o HD foi a minha morada profissional no HEM durante a última década, posso afirmar, sem falsa modéstia, que não haveria hoje o HD, se não me tivesse tornado lá residente.

As mudanças são frequentemente geradoras de ansiedade e desencadeiam amiúde sentimentos de desamparo e de tristeza, ou mesmo outros, mais primitivos, como o terror, a raiva ou a culpa; a saída de profissionais, ao longo dos anos, por decisão dos próprios, pela existência (ou pela aparente ausência) de necessidades do Serviço de Psiquiatria a que o HD pertence ou ainda porque os períodos de formação profissional dos profissionais mais jovens haviam chegado ao fim, foi quase sempre geradora de distress para os utentes.

A manutenção da minha presença no HD assegurou a continuidade de cuidados, garantiu o funcionamento permanente (mesmo durante a epidemia) e a estrutura do HD e, consequentemente, a previsibilidade que só um meio organizado cria, e que garante um contexto seguro onde os pacientes podem mudar isto é crescer.

Por outro lado, todas as mudanças que ocorreram no HD, ao longo da última década, tornaram-me, a mim, progressivamente mais resiliente. Por isso, não foram apenas os utentes do HD que mudaram; eu própria mudei.

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O que é o HD? Não há melhor forma de definir o HD do HEM do que dizer que é um lugar de mudança. Mudança e crescimento pessoal são indissociáveis.

Para haver mudança pessoal há condições básicas que devem estar reunidas. Sendo, de raiz, um tratamento diário, o HD exige motivação e esforço: o grau de envolvimento com que se frequenta o HD é fundamental para garantir o sucesso do tratamento, a tal mudança pessoal. Esse envolvimento traduz-se pela frequência, pontualidade e nível de participação com que o HD é frequentado pelo utente. Estar disponível para integrar um tratamento que se realiza fundamentalmente em grupo, e que exige que se trabalhe com (e para) os outros, é fundamental para poder tirar partido do tratamento do HD. Quanto maior for a adesão a estas premissas (o commitment, diriam os ingleses), maior é a probabilidade de se operarem mudanças relevantes no paciente. As mudanças passam pelo desaparecimento de sintomas, de depressão e de ansiedade, ou de alienação da realidade, como acontece nas psicoses. Passam ainda por uma mudança na forma como o próprio se encara a si mesmo e aos outros: de vítima de terceiros (da mãe, dos pais, dos irmãos, dos patrões), passa frequentemente a corresponsável pelo seu destino. As mudanças também passam pela alteração do estatuto profissional do doente, que se encontra amiúde paralisado num estado de inércia quando integra o HD, e que frequentemente se torna ativo no momento da alta; porque voltou a estudar, ou porque regressou ao mercado de trabalho, ou porque mudou para uma das posições intermédias possíveis, entre esses dois estados.

Como disse, o processo de mudança a que me refiro é mútuo: as mudanças não se operaram apenas nos doentes. Também os profissionais mudam ao longo do processo e, consequentemente, também eu mudei e cresci, ao longo dos últimos dez anos.

Quero também aqui deixar registado que o compromisso é um vetor com dois sentidos: o doente deve envolver-se construtivamente no tratamento, mas o terapeuta deve igualmente adaptar-se à estrutura de funcionamento do HD. Um e outro processo estão tão intimamente associados, que é impossível que um se dê, sem o seu reverso.

Por último, quero falar de aspetos subjetivos, igualmente fundamentais no tratamento das pessoas com problemas mentais complexos que passaram pelo HD, ao longo da última década. Coimbra de Matos salientava a importância de se gostar do paciente por cujo tratamento somos responsáveis: no entendimento deste médico, que tantos de nós influenciou, é difícil conseguirmos ajudar alguém de quem não gostamos. Isaura Neto, fundamental no meu crescimento profissional, ajudou-me a conservar a esperança, mesmo nos momentos mais conturbados do seguimento de pacientes difíceis, que me impuseram modos de relação tóxica, durante meses a fio. Estes dois psiquiatras, que dedicaram a sua vida profissional à clínica, foram, e são, determinantes no trabalho que realizo no HD. Por isso, também a eles se deve a longevidade do HD do HEM. Evocando-os, digo: que venham mais dez!

PS: “Uma história verdadeira” é o título de um pequeno conto, traduzido por Teresa Fernandes Swiatkiewicz, que narra a história de um professor que viaja para o estrangeiro, com o objetivo de participar numa conferência internacional, dedicada às relações entre as ciências exatas e a arte.1 No início da viagem, que parecera, à partida, asséptica, o professor fizera uma palestra sobre o impacto do consumo de proteínas na perceção das cores. Contudo, a viagem revela-se um verdadeiro pesadelo, quando ele tropeça, de forma inesperada, numa situação da vida real, que o faz perder irremediavelmente a sua identidade. Recomendo a todos os médicos internos que venham estagiar futuramente no HD, a leitura desse conto, em particular àqueles que tenham aspirações académicas: não vá dar-se o caso de tropeçarem nos casos demasiado reais que venham a encontrar no HD.

1. Olga Tokarczuk (2022). Histórias Bizarras. Lisboa: Cavalo de Ferro.