Rose and Daisy

mai-2021

Vou agora contar a história do meu encontro com a Rosa. O seu acompanhamento durou um total de cinco anos, com intervalos de vários meses de duração.

A Rosa não tinha sintomas depressivos propriamente ditos, quando me procurou (aparte a insónia), apresentando antes questões de natureza existencial: “Preciso de me reencontrar (...) Preciso de ajuda (...) O que me traz aqui é já não ser capaz de ter tempo de qualidade com os meus filhos (...) Não tenho nada de meu. Ninguém que me ajude!”

No seu caso, não precisei de fazer muitas perguntas, porque a necessidade de desabafar era enorme: “Os meus filhos convivem com esta situação; fui eu que lhes falei dela (...) Eramos amigas, eu fazia-lhe confidências (...) Há cinco anos comecei a desconfiar desta situação ... Em Julho apanhei-os na mesma cama! (...) Durante dezoito anos sempre me senti culpada e inferiorizada; porque trabalhava muitas horas, não estava com os meus filhos e ganhava menos que ele (...) Ele, aos olhos dos filhos, é um Deus, e para a família dele também.”

A injustiça da situação familiar que a Rosa vivia era tão evidente, que não me deixava margem para quaisquer dúvidas: nos últimos dois anos ela pagara a totalidade das despesas de alimentação, saúde e educação dos dois filhos e ainda transferira, mensalmente, algumas centenas de euros para a conta bancária do marido (que, ao contrário dela, trabalhava em casa). Ele era o proprietário da casa, bem como do barco em que costumavam velejar juntos.

Também explorei a história familiar de Rosa. O pai tinha falecido anos antes, de uma doença oncológica e a Rosa estava também a perder a mãe, que tinha uma demência. Tinha uma única irmã, que se encontrava longe e, tal como no caso de Margarida, a família do marido estava mais presente e era dominante. No caso de Rosa, havia uma incredulidade relativamente à sua situação familiar e por isso a relação que existia entre o marido e a empregada doméstica parecera-lhe ambígua durante muito tempo. Proporcional à incredulidade, era a ambivalência que sentia relativamente ao futuro do seu casamento: durante meses, as diligências que encetou para se separar foram muito tímidas e foi necessário potenciar a sua auto-estima, enquanto fazia um antidepressivo, para que se sentisse suficientemente forte e requeresse o divórcio, o que só aconteceu seis meses depois de nos termos encontrado. Ainda assim, menos de um ano depois de nos conhecermos, após a conclusão do ano escolar, a Rosa deixou a casa de família e arrendou outra, relativamente próxima, para que os filhos pudessem estar consigo e com o pai, continuando a frequentar a mesma escola. E só então deixou de transferir a mensalidade para o marido.

Depois de um período em que a sua vida passou a estar organizada em função da presença ou ausência dos filhos, a Rosa começou a desenvolver atividade física regular e passou a conviver mais com os seus conhecidos.

Um ano depois de Rosa me ter procurado, o pai dos seus filhos era pai pela terceira vez. Cerca de dois meses depois do nascimento da criança, a mãe dela (a antiga empregada de Rosa) sofrera um AVC, por rotura de um aneurisma cerebral e ficara totalmente dependente.

Passados alguns meses, a irmã de Rosa decidiu divorciar-se depois de, também ela, se confrontar com sucessivas infidelidades do marido. Isso reaproximou as duas irmãs e, cerca de um ano depois, a irmã de Rosa mudou-se para a região de Lisboa. Gradualmente, e por ter maior suporte familiar, a dose de antidepressivo foi sendo reduzida e, na última consulta que realizámos, a Rosa já não estava a fazer qualquer medicação.

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Nesta Primavera, conto as histórias destas duas flores porque quero destacar a importância do encontro - entre a pessoa que sofre de depressão (tenha ou não queixas depressivas espontâneas) e o médico que pode tratar a sua doença. Saliento que um bom médico não se limita a tratar os sintomas. Ajuda também a pessoa a potenciar os seus recursos internos, para que ela efetue mudanças de vida, evitando deste modo a cronificação da depressão. Saliento que em ambos os exemplos, as manifestações de sofrimento se tinham instalado insidiosamente, durante anos; não se tratava de meras reações a acontecimentos recentes e circunscritos no tempo, mas sim de mudanças que tinham tido impacto duradouro nas vidas destas duas mulheres, e nas vidas dos filhos delas. Nestes dois casos, é inequívoco que, mesmo não havendo uma causalidade biológica evidente para justificar o aparecimento da doença, os antidepressivos foram eficazes, diminuindo a intensidade e a duração dos sintomas depressivos e, para além disso, fazendo sobressair forças e reconhecer oportunidades, que puderam ser aproveitadas, potenciando a melhoria da qualidade de vida das duas doentes.

Para reforçar a importância do encontro entre o paciente e o médico, cito Pearl S. Buck: “O primeiro encontro entre duas pessoas significa em qualquer parte uma oportunidade. Não deve encarar-se como uma situação vulgar. Não deve ser acompanhado de indiferença, enfado, ou ainda encarado como uma casualidade. Qualquer encontro que consideramos casual pode oferecer-nos uma oportunidade para a vida inteira.” 1

1. Pearl S. Buck (2002). Para as minhas filhas com amor. Lisboa: Edição Livros do Brasil.