O Adamastor de 2020

abr-2022

Chegou a minha vez.

Uma qualquer variante do vírus da SARS-coV-2 atingiu-me em cheio neste mês, apesar das três doses da vacina e passei a ser mais uma testemunha da infeção. Os comumente relatados sintomas de febre, mialgias (dores musculares), fraqueza, fadiga, hiposmia (diminuição do olfato) e disgeusia (alteração do paladar) fazem agora parte do meu léxico, sempre que me pedem para descrever o que senti, ou seja de cada vez que partilho a minha experiência sobre o que foi ter covid-19.

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Para além das manifestações referidas acima, acumularam-se nos últimos dois anos múltiplos estudos que reportavam a existência de manifestações neuropsiquiátricas, nomeadamente de ansiedade e depressão, nos indivíduos infetados. Uma meta-análise que incluiu 147 estudos e que foi divulgada em Fevereiro de 2021, salientava que a ansiedade se encontrava entre as manifestações mais prevalentes da infeção (cerca de 15.9%), tal como a depressão (23,0%).1

Contudo, outro grupo de cientistas, epidemiologistas do King’s College de Londres, realizou entre Fevereiro e Abril de 2021, um grande estudo de base comunitária - cujos resultados foram publicados alguns meses depois - tendo verificado que a ansiedade e a depressão eram apenas ligeiramente mais prevalentes nos indivíduos que tinham tido testes positivos à SARS-CoV-2, do que naqueles que tinham testado negativamente; que tais manifestações eram relatadas sobretudo por aqueles que tinham mais de 40 anos; e naqueles que tinham tido a infeção há menos tempo (há menos de 30 dias). Os autores salientaram que outros fatores podiam ter contribuído para a maior prevalência de sintomas de ansiedade e depressão nos infetados, nomeadamente o próprio confinamento ou a existência de condições psiquiátricas prévias.2

Como compreender a emergência de sintomas de ansiedade, durante a epidemia? E como justificar o desenvolvimento de sintomas de depressão, nesse mesmo contexto?

Se pensarmos que a epidemia nos apanhou a todos desprevenidos, não é difícil imaginar que reagimos a essa ameaça como a outras circunstâncias interpretadas de igual modo, antes e depois disso, nas nossas vidas. Ora, se nos recordarmos que os mamíferos reagem unanimemente a uma ameaça de diferentes formas – lutando, fugindo ou, eventualmente, ficando paralisados –, compreendemos facilmente que as manifestações ansiosas emergissem (ou se agravassem) no contexto da globalização da epidemia, com o alarme social que lhe esteve associado e as recomendações para que congelássemos temporariamente as nossas vidas. Deduz-se que foram aqueles que apresentavam características prévias de personalidade de tipo ansioso, os que mais facilmente desenvolveram quadros de ansiedade patológica; generalizada, na forma de ataques de pânico ou como agorafobia. Por outro lado, é sabido que as necessidades de amor e pertença são decisivas, a seguir às fisiológicas e de segurança, para o ser humano. Uma relação interpessoal significativa, presencial ou à distância, reveste-se de primordial importância e sempre que os contactos sociais diminuem, o indivíduo ressente-se e tende a desenvolver, de forma insidiosa, sintomas depressivos. Por isso, o isolamento que nos foi recomendado contribuiu para o relato de sintomas depressivos.

Perante o bombardeamento sistemático a que fomos sujeitos durante meses - com notícias sobre o número de infetados e mortos-, os sucessivos alertas das autoridades de saúde sobre o risco de contágio, os conselhos para nos desinfetarmos e a tudo aquilo em que tocássemos, bem como as recomendações para que permanecêssemos isolados, não é de surpreender que os relatos de sintomas de ansiedade e de depressão tivessem aumentado exponencialmente, nos últimos dois anos. Por isso, o que o estudo mais recente vem sugerir é que o aproveitamento que foi feito destes relatos, amplificado pela necessidade de alimentar a máquina noticiosa contemporânea, veio aumentar a confusão do público, tornando mais difícil a distinção entre aquilo que é a reação esperada e compreensível a um acontecimento inesperado (o rápido alastramento da epidemia) ou negativo (o adoecer do próprio ou de alguém próximo ou, eventualmente, a sua perda) e aquilo que é o desenvolvimento patológico que origina o aparecimento de uma doença mental (ansiosa, depressiva ou mesmo de outro género).

Aqui chegados, é caso para refletir sobre o impacto do marketing (criando necessidades no potencial consumidor) e o papel dos media (pela avalanche de informação que divulgam) na forma distorcida como toda essa informação pode ter chegado ao público.

É indiscutível que o confinamento teve enorme impacto na saúde mental da população, mas convém destacar que esse efeito se notou sobretudo no agravamento de doenças psiquiátricas prévias, nomeadamente das psicoses, mas também de outras condições menos graves, mas tendencialmente crónicas, como a perturbação obsessivo-compulsiva, a agorafobia ou a fobia social. Outro caso foi o daquelas pessoas que desenvolveram quadros patológicos, de novo mas reativos e transitórios, na sequência de características de vulnerabilidade prévias, como a escrupulosidade ou a timidez. A maior idade ou a existência de doenças associadas a um índice de massa corporal elevado, como aquelas que condicionam dificuldade respiratória, mas também a hipertensão arterial ou a diabetes, essas sim, aumentaram o risco de desenvolver a síndrome respiratória aguda grave (SASR-coV-2), após a infeção por coronavírus.

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Na minha semana de quarentena, barricada com três doses de vacinas e dotada de juízo crítico pela profissão que exerço, consigo perceber que os sintomas psiquiátricos da infeção por covid foram um monstro Adamastor que a ciência (e não o marketing) ajudará a desmistificar, tal como os portugueses fizeram, no seculo XV, ao ultrapassar o extremo sul do continente africano (apelidado das Tormentas), desfazendo mitos medievais e batizando-o, desde então, como Cabo da Boa Esperança.

1. Rogers JP, Whatson CJ, Badenoch J, et al. Neurology and neuropsychiatry of COVID-19: a systematic review and meta-analysis of the early literature reveals frequent CNC manifestations and key emerging narratives. J Neurol Neurosurg Psychiatry 2021; 92 (9): 932-941

2. Klaser K, Thompson EJ, Nguyen LH, et al. Anxiety and depressive symptoms after COVID-19 infection: results from the COVID Symptom Study app. J Neurol Neurosurg Psychiatry 2021; 92 (12): 1254-1258