Manifestações do clima

nov-2022

Este mês fica marcado pela cimeira do clima,

a Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, realizada em Charm el-Cheik, no Egito, entre 6 e 18 de novembro. Em Portugal, durante a primeira semana da cimeira, alunos de duas escolas secundárias e do dobro das faculdades de Lisboa fizeram greve às aulas, ocupando os referidos estabelecimentos de ensino e juntando-se ao movimento internacional End Fossil Occupy, demonstrando assim que tinham uma atitude diferente da dos adultos, e que queriam participar ativamente nas mudanças necessárias à preservação do planeta. Alguns professores manifestaram a sua concordância com o movimento estudantil que decorria nas suas escolas, saudando a iniciativa e o Ministro da Educação veio posteriormente demonstrar o seu apoio à causa dos estudantes.

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Na mesma semana em que decorreram os protestos estudantis, o clima no hospital de dia em que trabalho ficou marcado pela alteração do estado mental de uma das doentes, que começou a demonstrar maior iniciativa, mas de forma simultânea, progressiva irritabilidade, ignorando as sucessivas advertências da equipa para que cumprisse o seu tratamento, que incluía, para além dos medicamentos, diversas terapias diárias em grupo. A crescente oposição da doente, que passou a recusar praticamente tudo o que lhe era recomendado, fazendo amiúde o contrário daquilo que lhe era devolvido e dificultando o tratamento dos restantes doentes, resultou na sua condução ao serviço de urgência do hospital, na sexta feira, após pedidos insistentes da família e sucessivas tentativas malogradas da equipa, para a trazer de volta à realidade.

Algures durante essa semana, os familiares, já sem saberem o que fazer para gerir a atitude conflituosa e o comportamento imprevisível da doente, ouviram ser-lhes devolvido, pelo familiar dum outro doente, que tinham sido demasiado complacentes ao longo da vida e que deveriam mudar a sua atitude para com a doente, promovendo assim a sua autonomização progressiva.

Oriunda de uma família de classe média, esta doente não trabalha há anos, dependendo emocional e economicamente dos pais, idosos, ainda que mantenha uma relação tumultuosa com eles (aí residindo precisamente o cerne da sua patologia).

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Os dois factos acima referidos, aparentemente não relacionados entre si - a manifestação dos estudantes e a mudança do estado mental da minha doente - recordaram-me o filme de 2020, Les Miserables, de Ladj Li (não o musical com o mesmo nome, de Tom Hooper), que vi há mais de um ano e que nos questiona sobre o que pode acontecer quando os piolhos (pequenos delinquentes que cresceram nos subúrbios de Paris, com pais omissos e escolas paralisadas – os novos miseráveis) se tornam uma fatia relevante da população e ameaçam tomar conta da sua comunidade pelo poder armado.

Sem dúvida que estou a comparar realidades muito distintas, a de alunos de classe média, com a de uma doente psiquiátrica e ambas as realidades com aquela a que pertencem jovens problemáticos de bairros desfavorecidos em França. Porém, um olhar mais demorado, faz-me identificar algo de comum nestas três parcelas da realidade, que num primeiro relance não se reconheceria, mas que confirma a minha máxima pessoal de que o hospital de dia de Psiquiatria em que trabalho é uma pequena amostra da sociedade em que vivo. O que para mim é evidente nos três exemplos referidos é a dificuldade que a família, a escola e a sociedade em conjunto demonstram atualmente em fazer uso da autoridade.

Penso que um dos problemas dos dias de hoje, em que felizmente vivemos em democracia, é que existe um receio generalizado de se ser malvisto (e malquisto) ao exercer a autoridade. Como se a autoridade que detemos, e que tivemos de conquistar, fosse, afinal de contas, motivo de vergonha para nós. Esquecendo-nos de que a autoridade dos pais, dos professores e até dos nossos superiores foi fundamental para o nosso crescimento e de que nos forjámos nessa luta pela independência, que nos permitiu ser únicos e autónomos.

Não estará a sociedade atual doente, não o sendo apenas a minha paciente? Parece que nós, adultos, estamos tomados por uma cegueira coletiva, que não nos faz ver as manifestações do clima. Um clima social marcado pela escassez de autoridade, que fomenta a instabilidade emocional e a insegurança dos mais jovens e que vamos pagar caro no futuro, como acontece à família desesperada da minha doente, lá no hospital de dia de Psiquiatria onde trabalho.

A autoridade não tem que ser absoluta, e muito menos despótica; o seu exercício pode e deve ser limitado pelas diversas instâncias que compõem os Estados democráticos (como acabou por acontecer na sexta feira em que a PSP foi chamada à Faculdade de Letras e quando, posteriormente, alguns dos manifestantes da classe estudantil foram levados a tribunal).

Nesta história quem fica malvisto são os educadores, que acabaram por legitimar o comportamento desafiante dos manifestantes. Na sua juventude não leram, com certeza, J.D. Salinger. Seguramente que ele diria agora, a propósito deste incidente nacional, aquilo que disse então, em 1945; o seguinte: “O que caracteriza o homem imaturo é que deseja morrer nobremente por uma causa, enquanto o homem maduro se caracteriza por desejar viver humildemente por ela.” 1 Esta era a lição que os adultos com responsabilidades educativas deveriam ter dado aos alunos, a propósito das manifestações do clima.

1. J.D. Salinger (2011). À espera no centeio. Lisboa: Quetzal Editores