Goodbye... Hello

mar-2022

Há pessoas que apetece ajudar.

Passou-se com o Paulo, que foi meu doente quando trabalhei no concelho de Cascais. Isso já foi há muitos anos. Deixei de o acompanhar no início de 2013, quando os doentes que eram seguidos no meu hospital passaram a ser assistidos no hospital vizinho. Nessa época vi-o apenas mais uma vez. Foi no ano seguinte, num dia em que estava de urgência no hospital de S. Francisco Xavier. Dessa vez eu estava acompanhada por um colega, o Paulo sentiu-se vexado e não voltei a ter mais notícias suas.

Decorreram, entretanto, mais de nove anos desde que deixei de seguir o Paulo. Perto do final do ano passado, quando estava prestes a terminar um longo dia de trabalho, o Paulo bateu à porta do consultório, à minha procura:

“Olá!” – visivelmente transtornado, perguntou-me se sabia quem ele era. Ficou satisfeito quando percebeu que eu sabia o seu nome, mas em vez de o exprimir, adotou uma atitude moralista e repreendeu-me por lhe ter dado, há quase uma década, um cartão com os meus contactos profissionais. Expliquei-lhe que estava de saída, ele despediu-se pouco depois – dizendo que se ia embora, mas que regressaria. Não tive notícias suas depois disso.

Passou-se algo semelhante com o Rui, escassas semanas depois. Ele dispensou os meus serviços a poucos dias do Natal, comunicando-me a sua decisão por telefone:

“Adeus” – despediu-se assim, sem mais, após anos de acompanhamento regular.

Um mês depois o Rui enviava-me um e-mail, que terminava da seguinte maneira: “O meu erro, na realidade, foi ter sido manipulado pelos meus familiares (...) os meus pais não duram sempre (...) e o dinheiro também não (...) O que é que faço?”

Claro que não lhe disse o que devia fazer, mas "adorei ouvir o Rui a dizer olá" 1quando o revi em consulta, este ano.

Quanto ao Paulo, repare-se no paradoxo: volvidos tantos anos, procurava-me para me dizer que eu tinha feito mal em dar-lhe uma maneira de entrar em contacto comigo (caso quisesse), tendo usado precisamente essa informação para o fazer!

*

A ambivalência é um sintoma característico das doenças mentais graves, aquelas que fazem parte do espectro da esquizofrenia. Bleuler, o psiquiatra suíço que descreveu o sintoma, considerou que existe uma sobreposição de afetos contraditórios na ambivalência psicótica. Adeus e olá. Repulsa e desejo, ódio e amor. Não e sim.

Bleuler descreveu ainda a ambitendência dos esquizofrénicos, sintoma no qual a cada decisão, se opõe e interpõe a decisão contrária. Fazer uma coisa e o seu contrário.

Pio de Abreu admite que a vontade seja a faculdade mais nobre da existência humana, considerando que ela está ligada à liberdade e que somente quando se escolhe, e toma uma decisão, se pode falar verdadeiramente de livre-arbítrio. “Mas a sua relação com os impulsos também cobre as contradições e complexidades em que essa existência decorre: vontade e impulsos são as duas faces da mesma moeda.” 2

Pode dizer-se que, a alguns doentes, a vontade está vedada; ou porque decidem uma coisa e o seu oposto ou porque se limitam a agir por impulso, e dele se tornam seus escravos.

1. Lucia Berlin (2016) Adeus. Em: Manual para mulheres de limpeza. Lisboa: Alfaguara – Penguin Random House, Grupo Editorial.

2. J.L. Pio de Abreu (1994) Introdução à Psicopatologia Compreensiva. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.