Especialistas em luto

jun-2024

(a vida é para se viver)

Há doze anos, a Manuela era uma virgem de trinta e sete anos que, quando falava da mãe, dizia a ‘nha mãe e que via no pai apenas um malfeitor alcoólico. Ouvia desabafos sobre o naufrágio do casamento e, claro, apoiava sempre a mãe. Andava triste, mas era bem-parecida e ainda sonhava ter filhos.

Dei-lhe uma medicação e falei-lhe de integrar um grupo terapêutico: ela mostrou-me tanto de temerosa quanto de temerária, contudo depois da primeira consulta, nunca mais a vi.

Esta semana a Manuela procurou outro médico: trazia-lhe a perda da mãe. Acordava muito cedo e continuava sozinha, mas quando chorava, o psiquiatra já só a ouvia balbuciar anhamã.

O meu colega também a medicou e, para ela aprender a dizer amanhã, mandou-a para uma psicóloga especialista em luto.