O conceito de empty nest (ninho vazio) refere-se aos sentimentos de tristeza, angústia e vazio existencial com que algumas mães (mais frequentemente que pais) se confrontam, quando os seus filhos saem de casa para viver de forma independente. Tendo sido descrito nos alvores, ganhou notoriedade na segunda metade do século XX. É uma espécie de baby blues ao contrário, em que o mesmo tipo de sentimentos assola algumas mães, aquando da chegada (do nascimento) dos seus filhos, e que se traduz frequentemente por angústia e labilidade emocional.
Nas sociedades ocidentais, em que a esperança media de vida da população aumentou, mas também a qualidade de vida daqueles que conquistaram anos de vida à morte (consequências da melhoria das condições de vida e da evolução dos cuidados de saúde), o conceito de ninho vazio perdeu a relevância que teve no passado. Isso é particularmente verdadeiro nos países do sul da Europa, nos quais os filhos abandonam a casa dos pais cada vez mais tarde.
Discutir se o conceito de ninho vazio está ou não morto é matéria para outro artigo. Este não é sobre isso (se é o que procura, saia AQUI).
*
O livro The Empty Nest 1, que me acompanhou ao longo do último mês, revelou-se uma agradável surpresa. Aquilo que começou por ser uma simples brincadeira – trazer um livro de ficção que deu à costa numa praia quase deserta em meados de Setembro, quando ele está fresco ainda, acabadinho de chegar – transformou-se numa leitura desafiante, através da qual lutei com verbos e expressões idiomáticas inglesas e também revi antigos constructos teóricos.
Trata-se de um livro de puro entretenimento, para cinquentões; a versão senior dos livros da conterrânea Enid Blyton, ou da sua versão 2.0 J.K. Rowling (sendo que, curiosamente, esta e Elizabeth Cadell viveram temporadas das suas vidas em Portugal), uma vez que a narrativa gira em torno das aventuras e desventuras de um casal de meia idade, depois de casar a última das três filhas, nos idos anos oitenta. A sua leitura, no entanto, fez-me evocar a depressão involutiva (um conceito entretanto banido do léxico psiquiátrico e praticamente extinto) e levou-me a pensar numa passível relação entre os conceitos de ninho vazio e melancolia, por um lado e os constructos de baby blues e de nostalgia, por outro.
Não me desviando do assunto que aqui me traz, encontrei uma boa distinção entre os dois conceitos, o de melancolia e o de nostalgia, nas conferências de António de Castro Caeiro2, proferidas na primeira metade deste ano, no CCB, e de que a Helena me falara recentemente. A melancolia, relacionada com o vazio deixado pela ausência, uma espécie de nevoeiro que se adensa nas entranhas de algumas pessoas, como nos vales, durante a Invernia, ao contrário da nostalgia, um sentimento mais leve e diáfano, como a neblina atlântica, que se desfaz com a partida da madrugada. Uma metáfora, pois, do início da vida, no caso da nostalgia e do envelhecimento, no caso da melancolia. O ciclo da vida, a que se referia Erikson.
Bom, mas voltando ao tema, o que reencontrei no conceito de ninho vazio foi uma espécie de versão light da antiga melancolia, a que Kraepelin dedicou dezenas de páginas e que os gregos definiram como o vazio que fica no lugar daquele que partiu.
Na época clássica da Psiquiatria, antes da DSM (a classificação criada pela hegemónica associação psiquiátrica americana, para catalogar as perturbações mentais), a melancolia referia-se a um estado de depressão grave, que poderia conduzir o doente à morte, por inanição ou por suicídio.
Na atualidade, pelo menos no mundo ocidental, já quase não se veem casos desses, de depressão-pelo-lugar-deixado-vazio. Antes se veem vazios que conduzem a depressões que poderiam ser melhor descritas como vácuos, uma vez que não se trata do espaço que fica por preencher, mas sim daquilo que resulta de um ninho sem fundo. Ninho esse onde, por mais que se procure, nenhum vestígio se encontra da matéria nutritiva que deveria ter alimentado o bebé, para que ele pudesse voar, isto é para que pudesse viver de forma autónoma. Nestes casos, os filhos vagueiam pelo mundo, numa procura incessante de afeto. Daí o vácuo do ninho, de certos ninhos. São as depressões do vazio (as depressões anaclíticas, na formulação teórica de Spitz), as que mais se veem na contemporaneidade. Esse vazio arrasta os que dele padecem, de terapeuta em terapeuta, de consultório em consultório, às vezes alternando a busca de um sentido existencial entre os serviços públicos de saúde e os hospitais privados (esses supermercados da saúde).
Nenhum terapeuta é suficientemente bom para que mereça ser conservado, porque nada nem ninguém consegue preencher o vazio existencial destes seres errantes. Nesta itinerância, chegam a (pasme-se) abandonar duas e três vezes o mesmo terapeuta, pois não suportam a mínima frustração. Querem ser curados da dor que sentem, sob anestesia, como por um golpe de magia.
Não compreendem que é através da relação terapêutica, da relação reparadora de que Coimbra de Matos falava, que podem mitigar a sua dor.
E vagueiam pelo mundo, carentes de amor, não conseguindo ligar-se profundamente a ninguém e nunca se tornando verdadeiramente independentes.
*
Aconteceu-me neste mês, com dois doentes. Despedi-me deles pela segunda e pela terceira vez. Talvez por isso, a leitura me tenha dado tanto prazer e o ninho vazio tenha permitido conceptualizar o sentimento de impotência que me foi por eles deixado. E, quem sabe, também por isso aqui deixe uma nota de gratidão a quem lançou ao mar o livro com o mesmo nome.
1. Elizabeth Cadell (1987) The Empty Nest. Leicestershire, F.A. Thorpe Ltd.
2. António de Castro Caeiro (2025) Sobre os Sentimentos (ciclo de conferências). Lisboa, CCB.