Daisy and Rose

mai-2021

Dedico estas linhas aos céticos. Aos que pensam que os psiquiatras não servem para nada, ou que são só para malucos, e não para as pessoas comuns. E também àqueles que acham que os seguimentos psiquiátricos, uma vez iniciados, nunca mais têm fim.

Agora que a Primavera caminha para o seu auge, com os seus dias mais longos e soalheiros, vou partilhar a história de dois acompanhamentos que tiveram o seu tempo, mas que chegaram ao fim. Apresento-vos hoje a Margarida, uma flor primaveril.

O meu encontro com a Margarida resultou da sua depressão. Há cerca de dois anos que ela se sentia triste e ultimamente acordava cansada, tinha dores de cabeça, dificuldade em concentrar-se e evitava o contacto com as outras pessoas. Foi por causa destes sintomas que ela concluiu que estava na altura de procurar ajuda. Na altura, mediquei-a com um antidepressivo e procurei conhecê-la melhor.

Há anos que a Margarida se debatia com uma situação familiar muito particular. Tinha 50 anos, estava casada há mais de duas décadas, tinha três filhos e trabalhara como professora, mas deixara essa atividade há tempo, quando os filhos ainda eram pequenos. Nos últimos quatro anos a família alarga-se, com o nascimento de uma criança e o seu marido tinha sido pai pela quinta vez, há cerca de dois anos. Os dois filhos mais novos do seu marido não eram seus filhos; tinham uma outra mãe, antiga colega de trabalho do marido. Depois do nascimento da primeira criança, a Margarida tinha exigido que o marido saísse de casa, mas ele voltara alguns meses depois, correspondendo ao desejo das suas filhas e eles tinham-se reconciliado. Da segunda vez, os filhos quiseram que o pai permanecesse, e ele ficou. Desde então, a Margarida tinha desenvolvido os sintomas depressivos referidos acima.

O meu conhecimento da Margarida poderia ter ficado por aqui, se eu não tivesse explorado a sua história familiar. A Margarida já tinha perdido os seus pais. Isso tinha acontecido há anos, na sequência de um grave acidente de automóvel do qual tinham escapado o marido (o condutor), o filho (ileso) e a Margarida (com múltiplas fraturas). Ela também tinha perdido duas irmãs (uma delas com doença oncológica) e o seu irmão estava geograficamente afastado. A Margarida estava sozinha e não tinha emprego e por isso convivia coma aquela bizarra situação familiar – poder-se-á pensar. Contudo, não havia sinais de revolta nesta minha doente e ela não vinha à procura de ajuda para pôr fim ao seu casamento.

À medida que foi notando melhorias, graças ao tratamento, a Margarida foi sentindo necessidade de, também ela, criar algo. Pensou em vários negócios que poderia concretizar com algumas amigas, mas por esta ou por aquela razão, esses projetos não se realizaram. Por outro lado, o marido e ela tinham começado a praticar desporto juntos há poucos anos, ela ganhara vários torneios femininos e por isso, quando o acompanhamento chegou ao fim, menos de um ano depois de nos termos conhecido, não foi surpreendente para mim, que ela se mostrasse entusiasmada com a ideia de apoiar o marido num negócio que, entretanto, ele tencionava criar.

Disse há pouco que a Margarida estava sozinha, mas isso não é verdade. Ela era católica e participava ativamente na vida da sua comunidade religiosa. Por isso, o seu caso clínico destaca também o papel que a religião pode desempenhar na apresentação dos quadros clínicos e na sua recuperação (um estudo de 2017, publicado na Revista Europeia de Epidemiologia, destaca precisamente o papel da religiosidade na conservação da saúde, estando inversamente relacionada com os sintomas depressivos).

Por outro lado, a história da Margarida ilustra bem o processo terapêutico, que começa com uma tomada de decisão, prossegue com a procura de ajuda e se concretiza com o encontro entre o paciente e o seu terapeuta. Salienta a importância do tratamento na remissão dos sintomas e o conhecimento que pode resultar do encontro. Na situação ideal, ambos, paciente e terapeuta, ganham maior conhecimento acerca dos seus recursos e das suas capacidades.