Carta a uma Desconhecida1

nov-2025

(acerca de procurar ajuda especializada)

Este mês, ao contrário do habitual, decidi publicar um texto escrito por um dos meus pacientes, o Miguel S.

O texto está escrito em forma de carta, endereçada a uma pessoa desconhecida.

Esta pessoa ainda não decidiu procurar ajuda. Talvez nem sequer tenha ponderado tal hipótese, contudo não se sente satisfeita com a sua vida.

É frequente sentir-se triste ou ansiosa.

Não tem nenhum compromisso que a faça sair diariamente e afastou-se dos amigos e conhecidos há meses, pelo que passa a maior parte do tempo em casa.

Pensa muitas vezes que falhou, o que a faz sentir-se zangada, ou culpada (o que ainda é pior).

*

O caminho é longo? É.

Vale a pena? Sem sombra de dúvida.

É fácil? Definitivamente não.

O auto-conhecimento é uma jornada interminável mas essencial, que permitirá reabilitar a tua self-image, diminuída e espezinhada por anos de bullying e isolamento.

Tens de te reconstruir começando pelos alicerces, com parcimónia, caso contrário existe o risco de tudo desmoronar.

Neste momento o meu foco prende-se com evitar retrocessos, em vez de construir mais camadas. Não sei se será a abordagem correta, só o tempo o dirá; incorreta não é, pode é não ser a mais correta.

O processo terapêutico implica igualmente mudares a tua visão do mundo, pois o teu passado e porventura o teu presente são responsáveis por criar uma imagem distorcida e deturpada deste.

Tens de deixar de ver as interações humanas de forma meramente utilitária. A ausência de utilidade como uma perda de tempo, fonte de incerteza e enfado.

Tens de deitar abaixo muitas das tuas paredes, pois ao contrário da maioria das pessoas ergueste demasiadas. Estas tiveram um propósito nobre no passado protegendo-te, contudo a sua influência desmesurada atual é contraproducente ao processo de cura, impedindo-o e atrasando-o.

Tens de trocar o teu extremo cinismo e amargura e aceitar o que a vida te traz (de ressaltar que algum cinismo era positivo).

Ah, não te esqueças de sorrir mais, afinal de contas os sorrisos são infeciosos!

*

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1. Referência ao livro de Stefan Zweig:"Carta de uma Desconhecida".