Animais em vias de extinção

set-2021

Machos, homossexuais e trans: homens à procura da sua identidade.

Há muitos anos, quando eu ainda era aluna de Medicina, tive de recolher e apresentar a história clínica de um doente psiquiátrico. Coube-me um homem jovem, que se encontrava internado, por ter, entre outros sintomas, ideias delirantes persecutórias. Estas ideias giravam em torno da convicção de que era apontado como homossexual, o que ele achava uma afronta, porque considerava não o ser. A sua vida girava em torno desta inquietação identitária e tudo à sua volta confirmava que estava a ser alvo de difamação, sem que o pudesse evitar.

Apesar do tema da sexualidade ser relativamente comum nos delírios dos doentes daquela época, passou-se, desde então, muito tempo e por isso foi com alguma surpresa que me cruzei recentemente com um outro doente, para quem esta questão é igualmente central e angustiante, tal como era para o jovem que conheci quando era estudante. Este doente, que também já não é jovem, afirma que é alvo de falatório na vizinhança há anos, porque alguém, certo vizinho, lançou um dia o boato de que ele é maricas. Acompanhando os tempos, este homem, que se tornou entretanto infoexcluído, acredita que lhe é movida uma campanha na internet, tendo por base material falso, que o expõe de forma infame. Ele, que se considera um macho, crê que o reconhecimento da sua masculinidade é crucial e por isso não percebe que terá de desatar o nó górdio em que acabou por fechar a sua vida, se a quiser endireitar.

A verdade é que, na nossa sociedade, que passou por enormes transformações nas últimas décadas, já é raro encontrar quem se sinta mortificado pelo que pensam os vizinhos - nomeadamente, pelo que pensam acerca da sua sexualidade - por isso, ao ouvir este doente falar sobre o que o transtorna, senti quase ternura por este homem exemplar: os jovens fazem o seu coming out cada vez mais cedo e os velhos, seguindo o exemplo dos mais novos, fazem também a afirmação da sua diferença, sem grandes sobressaltos.

Hoje em dia, há quem não encontre paz no corpo com que nasceu e o queira transformar no seu inverso: temos os homens trans (que nasceram com órgãos sexuais femininos) e o seu inverso (as mulheres trans, reconhecidas pelos outros como homens, mas que se sentem mulheres aprisionadas num corpo masculino). Numa realidade em constante mutação, na qual uma parcela da população pensa que basta a afirmação pessoal do seu querer (“Sou homem!”) para ser reconhecida como tal, mesmo que isso seja incongruente com o que é objetivamente observado pela restante população, que importância terá, na realidade, o que os outros pensam acerca da nossa sexualidade? Ou mesmo do nosso género?

Pode-se ser homem e sentir atração sexual por mulheres (o arquétipo, gerador de vida). Mas também se pode ser homem e sentir atração sexual por outros homens. Pode-se ser homem e depois mulher, numa só vida (e o seu oposto também): houve a libertação sexual dos anos sessenta do século XX e a democratização do género, já neste século. Por isso, encontrar um homem adulto, deveras angustiado com a sua identidade sexual, é um verdadeiro achado, nos dias que correm: um verdadeiro animal em vias da extinção.