A importância de se chamar Ana Lua1

jul-2025

(acerca da importância do diagnóstico)

Luana gostava de ir a casa da tia-avó todas as tardes. Inicialmente, os vizinhos elogiavam-na: já não se via os netos crescidos terem tal cuidado com os avós. Mas, à medida que os anos foram passando e os vintes se foram adensando, passaram a achá-la esquisita e, por fim, concluíram que era retardada.

Não se pense que tal juízo era maldoso. O próprio pai de Luana, que tinha grandes planos para o futuro dela (já tinha feito do irmão um astrofísico e, à sua menina, queria ver-lhe assente uma branca bata de médica), acabara por se impacientar com a sua recusa em crescer (de que outra maneira descrever a sua mania de ver as mesmas séries juvenis – Morangos com Açúcar, Inspetor Max – uma e outra e outra vez?) Por isso, não poucas vezes, humilhava-a, chamando-lhe atrasada e outras coisas piores.

É verdade que ele também já não era jovem quando casara com a mãe dela e quando, finalmente, fora pai. Mas, aos seus olhos, a menina teimava em manter-se criança e prova disso é que nem na escola singrava.

Até o seu primeiro amor tinha sido diferente dos demais. Fora súbito e intenso como um aguaceiro. Feito de fantasias, mais do que realidades, a sua afeição levara o rapaz, também ele farto da sua insistência (ela mandava-lhe mensagens às dúzias), a desembaraçar-se dela. Dizia-lhe que não a queria de formas cada vez mais rudes, até chegar a ofendê-la aos olhos de todos (filmando até uma das suas últimas tentativas para ser aceite por ele e publicando-a no Instagram).

A menina limitava-se a existir, entre os acessos de fúria paterna, a chacota do príncipe encantado e as pausas do seu próprio processo de aniquilação (sempre que se sentia rejeitada, cortava-se nos braços e nas pernas).

No entanto, ela não era a única que sofria. O pai tinha uma doença crónica, que fazia com que, de forma recorrente, mas sempre inesperada para a menina, tivesse ataques eméticos violentos, durante os quais vomitava todo o tipo de impropérios. A mãe, essa, sentia-se impotente para o ajudar na doença, pois todas as estratégias que tentara se tinham revelado inadequadas e infrutíferas, logo inúteis. Desesperada, levava a menina à psicóloga, para que esta a escutasse e lhe fizesse crescer uma carapaça protetora em relação ao pai e aos demais homens.

Até ao dia em que decidiu levar a menina a uma médica, sem sequer imaginar que, de uma penada, ia encontrar o diagnóstico para a filha e o tratamento para o pai.

A seguir ao nascimento, o dia mais importante da vida de Luana foi aquele em que recebeu outro nome oficial. Não com o registo, nem através do batismo, tampouco por via do casamento, mas antes pelo diagnóstico. Nesse dia, todas as características da menina se encaixaram como peças num puzzle (a sua dificuldade de ler entrelinhas, o tempo que passava sozinha no quarto, entretida com o TikToK e o Instagram, o facto de não ter amigos). O pai, em particular, passou a vê-la com outros olhos e até o nome dela (escolhido pela mãe) lhe pareceu evidente: Ana Lua. Nesse dia, o pai compreendeu que a sua menina aluada, que não dava pela passagem do tempo e que se assustava até com o som de uma campainha, era descendente da Lua e não do Sol. Que a condição dela não tinha tratamento, mas carecia de cuidados especiais. E que também ele precisava de especialistas para tratar a sua doença.

Nesse dia inaugural, depois de ouvir a palavra autismo, o pai de Luana dormiu em paz, pela prima vez.

1. Referência ao livro de Oscar Wilde: “A importância de se chamar Ernesto.”