A clínica, a médica e os novos tempos

jan-2024

Há 25 anos, em Janeiro de 1999, nascia uma nova clínica em Setúbal,

a Clínica da Família. A clínica foi fundada pela Dra. Raquel Merca, especialista em Medicina Geral e Familiar. Esta médica procurou, desde sempre, manter uma oferta generalista e holística de serviços de saúde, convidando profissionais de diversas áreas, para consigo trabalharem. Este espírito norteou a forma como dirigiu a clínica até 2022. Graças ao seu desempenho financeiro, a clínica integrou o Top 5 % das PME mais sólidas de Portugal, no difícil ano de 2020, o da epidemia.

A minha parceria com a Clínica da Família remonta a Maio de 1999. Acompanhei o seu crescimento e simultaneamente expandi a minha lista de doentes, contribuindo inequivocamente para a afirmação da Clínica da Família no panorama de cuidados de saúde prestados na cidade de Setúbal. De facto, a minha prática médica naquela cidade, sediou-se exclusiva e ininterruptamente nesse local, ao longo do último quarto de século. Ao longo desse tempo, a clínica foi-se transformando num negócio rentável e, por isso mesmo, apetecível.

Em 2022, por razões pessoais e familiares da gerente e diretora clínica, o negócio foi trespassado, sendo assumida a direção por outra médica, também ela clínica geral. Com a aquisição da clínica, a gerência mudou e, como é habitual nestas situações, novas regras passaram a caracterizar a gestão do negócio.

Penso que não haverá muitos clínicos que, como eu, se possam orgulhar de ter conseguido manter uma tão longa colaboração com um prestador privado, com resultados positivos para ambas as partes, durante tantos anos. Em que ambas ficaram a ganhar. Penso igualmente que poucos serão os médicos, e afins, que terão sido escrupulosos ao ponto de, durante tanto tempo, desenvolverem as suas práticas privadas longe dos estabelecimentos públicos onde trabalhavam, contribuindo, com empenho, para a melhoria dos cuidados prestados aos utentes do Serviço Nacional de Saúde. No meu caso, evitei competir, por proximidade geográfica, com qualquer outro dos meus locais de trabalho, recusando a vizinhança quer com o hospital onde trabalho, quer com o consultório, onde desenvolvo a maior parte da minha atividade privada.

Dizia Lídia Jorge, numa entrevista ao jornal Expresso deste fim de semana, que “Vivemos num tempo de profunda inconsistência em todos os planos, a realidade tornou-se inapreensível, mutável permanentemente [...] não há tempo para alguma coisa permanecer, solidificar.” Estou de acordo com o que diz a escritora: as pessoas ficam cada vez menos tempo no mesmo lugar, dificilmente contribuindo para a solidez do que quer que seja. Convictas das suas qualificações e direitos, e inebriadas que estão por esta sociedade de consumo, que tudo lhes promete, trocam facilmente de superiores, sejam eles patrões ou parentela, com a expectativa de resultados rápidos ou extraordinários.

Por isso, neste ano em que completo 25 anos de parceria com a Clínica da Família, espero ver o meu contributo para o seu crescimento reconhecido, valorizado e bem tratado. Uma clínica constrói-se com o lento passar dos anos, com trabalho dedicado e responsável dos seus (bons) parceiros. Algo que, nos tempos que se vivem, não é fácil de encontrar.