A barraca

nov-2023

Seria uma barraca, se ela não aparecesse!

Interrompi a reunião com os meus colegas para descer, porque nesse dia tínhamos uma convidada muito especial no hospital de dia (como se isso não bastasse, tinha chegado a meio do Journal Club; falavam do impacto de usar antidepressivos como tratamento de manutenção da doença bipolar, por causa do risco de desencadear fases maníacas).

Quando cheguei ao rés-do-chão, a nossa convidada ainda não tinha chegado, por isso fiquei a matutar em atividades alternativas para os doentes, caso não se tratasse de um mero atraso e ela não aparecesse de todo: a verdade é que ela também se atrasava (e faltava), quando frequentava o hospital de dia. Agora que já tinha recomeçado a trabalhar, eu esperava que ela fosse mais confiável e que não nos deixasse, a nós, equipa, e, sobretudo, aos outros utentes, pendurados (o que, aliás, já tinha acontecido, alguns anos antes, com outra ex-utente, essa convidada para fazer um atelier com os doentes que se encontravam na altura em tratamento, que não chegara a realizar-se). Seria uma barraca, se ela também não aparecesse!

Felizmente, a Catarina chegou pouco depois e começou quase de imediato a partilha da sua experiência pessoal com o atual grupo de utentes do hospital de dia. De como tinha sido o seu tratamento e de como conseguira recomeçar a trabalhar, após anos de desemprego: das oportunidades e dos obstáculos que tinham surgido no seu percurso recente de vida.

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Foi uma manhã cheia no hospital de dia! A presença da Catarina encheu o HD de calor; ela tinha as emoções à flor da pele e chorou e riu connosco, cativando a nossa atenção durante mais de hora e meia e respondendo a todas as questões que lhe iam sendo colocadas, (a maioria, preparadas, durante a semana, pelos outros doentes).

Constatar que o Martim (que tem tido dificuldades semelhantes em aderir ao programa do HD – porque falta ao tratamento ou porque se atrasa, ou porque se resguarda atrás do silêncio) estava genuinamente interessado no testemunho da sua congénere, fez com que valesse a pena a inquietação da incerteza, quanto à presença dela (e a deselegância do meu comportamento para com os meus pares). A Catarina representou a melhor versão de si própria, procurando incutir esperança aos outros utentes e usando o seu testemunho como exemplo: nas suas palavras, se hoje está a trabalhar, foi porque (ainda que muito ambivalente na altura) arriscou e fez uma experiência de trabalho (curta, de apenas duas semanas), ainda durante a frequência do HD (e não se pense que o caso dela não é tão grave como o dos outros doentes, porque ela já conta com vários internamentos na psiquiatria).

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O final desse dia de trabalho reservava-me mais uma surpresa, que confirmava a importância do primeiro encontro entre duas pessoas: do momento inicial, em que travam conhecimento mútuo. A Helena, professora de língua inglesa recém-aposentada que conhecera havia um mês, e que me procurara por sintomas depressivos, tinha seguido a minha sugestão e, após a nossa primeira consulta, fora ao Teatro A Barraca, para ver a peça que lhe recomendara, representada em Inglês.1 E rira e chorara, sozinha, às escuras, tocada pelas emoções dos atores e, ao mesmo tempo, exercitando as suas, estreitadas pela depressão.

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A verdade é que a criatividade é fundamental no tratamento de pessoas com doença mental, seja esta moderada ou mesmo severa. Diria até mais: quanto mais grave a doença, mais exigente ela é, em termos de criatividade, para o médico, que deve usar uma combinação de várias estratégias, para aumentar a eficácia do tratamento; seja o tratamento o fármaco que a Helena levou nessa primeira consulta, seja a peça de teatro que (também) lhe recomendei. Ou o testemunho dos que em tempos foram (igualmente) utentes do HD.

1. Andrew Bovell (2016). Things I Know To Be True.